Hoje, é claro que estamos perante um desafio comum a várias economias europeias, onde a subida dos preços afasta cada vez mais famílias do acesso à habitação.
Em 2025, o preço médio das casas ultrapassou os 250 mil euros. O volume do mercado cresceu de 16 mil milhões de euros no início do século para mais de 41 mil milhões na atualidade. Ainda assim, o número de transações continua abaixo dos níveis registados entre 2000 e 2005.
A subida dos preços tem sido impulsionada pela escassez persistente de oferta. Entram no mercado cerca de 20 mil novas habitações por ano, muito aquém das 70 mil estimadas como necessárias. Ao mesmo tempo, a população tem vindo a aumentar desde 2021, impulsionada por um saldo migratório positivo, enquanto o número de famílias cresce e a sua dimensão média diminui.
Também o parque habitacional revela desajustamentos face às necessidades atuais. Cerca de 12% dos edifícios foram construídos antes de 1960 e 61% das habitações apresentam áreas em torno dos 100 m². A reabilitação e adaptação do stock existente tornam-se, por isso, indispensáveis.
No acesso ao mercado, a entrada continua a representar um obstáculo significativo. A aquisição de habitação exige, em regra, cerca de 15% do valor do imóvel, a que acrescem impostos e outros encargos, estimando-se que sejam necessários entre 13 e 15 anos de poupança para suportar estes custos.
Exigem-se, por isso, respostas integradas: simplificação e aceleração dos processos de licenciamento, incentivos fiscais, revisão dos regulamentos de construção e reforço efetivo da oferta.
É neste contexto que a intervenção europeia ganha particular relevância. O plano de Bruxelas aponta para o reforço da oferta, através da reabilitação e reconversão de imóveis, da simplificação dos processos e da mobilização de investimento público e privado.
A criação de uma plataforma europeia de investimento, com capacidade para mobilizar milhares de milhões de euros por ano, traduz bem a ambição colocada neste tema. Importa ainda destacar o papel do Comissário Europeu da Habitação, Dan Jørgensen, cuja recente visita a Lisboa sinaliza o reconhecimento da gravidade da situação e a vontade de adaptar soluções à realidade nacional.
A escala europeia permite alinhar políticas, mobilizar recursos e reforçar a capacidade de resposta. Mas sem um aumento consistente da oferta, dificilmente será possível inverter a trajetória dos preços e devolver previsibilidade ao mercado.
A Europa deu um passo importante. O verdadeiro desafio será agora transformá-lo em soluções concretas para os cidadãos.