Um crescimento de 5,9 mil milhões face ao ano anterior, fortemente impulsionado por medidas como a isenção de IMT e a garantia pública para jovens, que representaram cerca de 60% dos novos contratos.
Perante este cenário, importa fazer a leitura correta dos factos.
Em primeiro lugar, estes números não são apenas um reflexo de estímulos públicos. São, sobretudo, o espelho de uma procura estrutural muito robusta, maioritariamente nacional, que continua a procurar no acesso à propriedade uma resposta de estabilidade e segurança. A narrativa de um mercado movido exclusivamente por investimento estrangeiro não resiste à análise dos dados. O dinamismo do crédito revela confiança das famílias e das instituições financeiras.
Mas seria um erro confundir dinamismo com resolução estrutural.
O aumento do crédito não elimina o problema central do mercado habitacional português: a escassez persistente de oferta. Continuamos a construir abaixo das necessidades do país, enfrentando licenciamentos morosos, custos de construção elevados, carga fiscal significativa e uma complexidade regulamentar que trava projetos e desincentiva investimento. Enquanto não desbloquearmos estes constrangimentos, a pressão sobre preços e rendas manter-se-á.
As medidas dirigidas aos jovens são positivas e devem ser reconhecidas como tal. A garantia do Estado e a redução de encargos fiscais facilitaram o acesso ao crédito numa fase particularmente desafiante do ciclo económico. Contudo, estas soluções atuam sobretudo sobre a procura. Se não forem acompanhadas por um reforço efetivo da oferta, arriscam-se a produzir efeitos limitados no médio prazo.
Na APEMIP temos defendido, de forma consistente, que o debate sobre habitação deve abandonar simplificações e centrar-se naquilo que verdadeiramente importa: aumentar a oferta, acelerar a reabilitação urbana, criar condições fiscais estáveis e previsíveis e promover uma articulação eficaz entre Estado, municípios e setor privado.
O recorde de 23,3 mil milhões de euros em crédito à habitação não é um problema per si. Acaba por revelar um sinal de vitalidade do mercado e de confiança no futuro.
O verdadeiro desafio continua a estar em garantir que esta confiança não assenta numa base frágil. Precisamos de um mercado equilibrado, sustentável e capaz de responder às necessidades reais das famílias portuguesas.
Mais crédito pode ser um indicador de dinamismo. Mas só mais oferta garantirá estabilidade.