O seu impacto ultrapassa o setor imobiliário e projeta-se na mobilidade, produtividade, natalidade, coesão territorial e, sobretudo, na estabilidade das famílias. Discutir habitação é, por isso, discutir o futuro do país.
Na Century 21 Portugal defendemos que este debate só produz boas decisões quando assenta em evidência. Ciência, academia, decisores públicos e operadores privados têm de convergir numa cultura de dados, transparência e avaliação de impacto. É com esse propósito que apresentámos este mês, no Observatório do Imobiliário, o estudo “Acessibilidade à Habitação”, que procura contribuir para um diagnóstico rigoroso sobre o acesso à casa em Portugal.
Os dados revelam um paradoxo claro: o mercado manteve-se dinâmico, mas as dificuldades de acesso agravaram-se, sobretudo para quem procura a primeira habitação. A explicação reside, em grande medida, na elevada taxa de proprietários e na relevância das trocas de casa. Muitos agregados beneficiam da valorização acumulada dos últimos anos para vender e voltar a comprar num patamar inacessível a quem entra agora no mercado sem património prévio. A recuperação de rendimentos, a descida das taxas de juro e os apoios familiares e públicos também ajudaram a sustentar decisões de compra.
Importa, igualmente, enquadrar o peso da procura internacional. Embora relevante em geografias específicas, os dados do Instituto Nacional de Estatística apontam para um reforço da procura interna em 2025, com compradores não residentes a representarem cerca de 5% num trimestre do ano.
O problema do acesso é, assim, mensurável. Quando cruzamos rendimentos com preços e com a distribuição da oferta, encontramos um desalinhamento estrutural: a oferta concentra-se em segmentos onde apenas uma minoria consegue chegar, deixando a classe média com alternativas escassas e empurrando muitos agregados para taxas de esforço incompatíveis com uma vida estável. O diferencial de rendimentos face à Europa ajuda a explicar esta realidade e mantém o esforço de acesso persistentemente elevado.
Responder a este desafio exige uma visão integrada. Não basta construir mais casas: é decisivo onde, como e para quem se constrói. Implica rever instrumentos de planeamento numa lógica metropolitana, melhorar a mobilidade, atualizar normas de construção e apostar em inovação que acelere a industrialização do setor, aumentando escala e eficiência.
A habitação não precisa de mais opiniões, mas de diagnósticos sólidos e execução consistente. Só assim será possível transformar um mercado ativo num mercado verdadeiramente acessível.