Portugal a dois ritmos: preços das casas disparam e rendimentos ficam para trás

Portugal a dois ritmos: preços das casas disparam e rendimentos ficam para trás

Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) confirmam: o valor das casas em Portugal voltou a subir em março, atingindo novos máximos. À primeira vista, este é um sinal de dinamismo. Mas a realidade é mais complexa e exige uma leitura prudente.

Portugal continua a apresentar fortes assimetrias no acesso à habitação. Em 2025, comprar uma casa de 90 m² em Lisboa custa, em média, mais de 455 mil euros, enquanto no Porto ronda os 324 mil. Já em várias capitais do interior, os valores situam-se entre 94 mil e 110 mil euros. Esta disparidade contrasta com rendimentos familiares relativamente homogéneos, evidenciando um desequilíbrio crescente.

Nos últimos três anos, os preços subiram de forma generalizada. Em muitas cidades, comprar uma casa implica hoje mais 40 mil euros do que em 2022, podendo esse aumento ultrapassar os 90 mil. Paradoxalmente, foram os mercados mais acessíveis que registaram as maiores subidas percentuais.

Este contexto tem impacto direto nas famílias. A “casa ideal” está hoje mais pequena. Atualmente, em 12 capitais de distrito, cumprir uma taxa de esforço de 33% obriga à compra de habitações abaixo dos 90 m², muitas vezes inferiores a 65 m². Há três anos, esta realidade limitava-se a duas cidades.

Os dados da Century 21 Portugal para o primeiro trimestre de 2026 ajudam a compreender o momento atual. O volume de vendas cresceu 9%, mas o número de transações caiu cerca de 8%. Ou seja, vende-se menos, mas a preços mais elevados. O preço médio subiu 22% face a 2025, embora tenha recuado face ao final do ano passado, sinalizando maior contenção.

Não estamos perante uma quebra da procura, mas sim uma mudança no comportamento dos compradores. As decisões são mais ponderadas e o peso do rendimento disponível é cada vez mais determinante. Em paralelo, o arrendamento ganha relevância como alternativa.

Importa ainda sublinhar que o mercado é hoje sustentado sobretudo pela procura interna. As famílias portuguesas representam a larga maioria das transações, impulsionadas pela chamada “troca de casa” e pelos seus ciclos de vida.

O cenário aponta para um mercado mais seletivo nos próximos meses. Os preços poderão estabilizar, mas o acesso à habitação continuará a ser um desafio central. Mais do que recordes, o foco deve estar em garantir equilíbrio e acessibilidade, condições essenciais para um mercado saudável e sustentável.