O mercado imobiliário do Sul da Europa, do qual Portugal faz parte, está a destacar-se no contexto internacional. O capital alocado à região está a aumentar cinco vezes mais rápido do que nos mercados mais tradicionais da Europa central e ocidental.
O relatório “European Investment Nowcast Q3 2026”, agora divulgado pela consultora Savills, aponta que, até setembro, terão sido investidos na Europa 156.000 milhões de euros, mais 4% que no período homólogo. Deste valor, 46.000 milhões de euros foram transacionados no terceiro trimestre, com a atividade a recuar 6% face ao mesmo período de 2025.
O balanço é positivo, mas os resultados preliminares do terceiro trimestre «podem refletir uma maior prudência nas estimativas após as mais recentes decisões sobre as taxas de juro, numa altura em que a incerteza sobre o custo do financiamento e os preços prolonga os processos de due diligence».
Além disso, olhando para o resultado acumulado do ano, o relatório da Savills aponta para uma recuperação desigual entre os diferentes mercados regionais.
Assim, a Europa Central e de Leste lidera em termos de crescimento, com um volume de investimento imobiliário que está 34% acima do registado no ano passado, seguida dos países nórdicos, com mais 25%, e do Sul da Europa, com uma subida de 20%. Em contrapartida, os três maiores (e tradicionais) mercados europeus – Reino Unido, Alemanha e França – viram o volume investido descer 8%, enquanto no resto da Europa Ocidental, a atividade caiu 5%.
No que diz respeito aos mercados sul-europeus, os especialistas salientam que Espanha continua a captar investimento, apoiada no desempenho da economia e num prémio de risco soberano favorável em comparação com outros países europeus. Entretanto, em Itália as grandes transações sustentam a atividade, com o interesse investidor a focar-se no retalho, em especial fora dos centros urbanos, na hotelaria e na logística. O capital value-add tem um papel relevante no mercado italiano, a par de um regresso gradual dos investidores core.
Em Portugal, os dados disponíveis ao momento são relativos ao primeiro semestre, com 1.400 milhões de euros transacionados em imobiliário comercial até junho, mais 14% do que no período homólogo, sendo que a hotelaria concentrou 36% do volume investido.
No Norte, e depois de um primeiro semestre com várias grandes transações, a estimativa da Savills para a Suécia entre julho e setembro é, contudo, mais baixa. No entanto, o sentimento do mercado mantém-se positivo, com procura de grupos suecos e noruegueses e uma carteira de negócios ativa que deixa margem para melhorias no 4º trimestre.
Já na Europa Central e de Leste, a Polónia beneficia do capital de investidores da região, em especial checos, enquanto a atividade nas áreas da defesa e da indústria transformadora reforça as perspetivas de procura de espaços industriais.
Investimento vai crescer 7%
As projeções da Savills apontam para que o investimento imobiliário na Europa atinja os 248.000 milhões de euros este ano e os 266.000 milhões de euros em 2027, uma subida de cerca de 7% em cada um dos anos.
As previsões para 2026 foram revistas em baixa, essencialmente porque os três maiores mercados, sobretudo França, estão a travar o crescimento europeu. Pelo contrário, a Europa Central e de Leste, os países nórdicos e o Sul da Europa deverão ser os principais motores. O último trimestre pode trazer melhores números com o fecho de negócios já em curso, mas o relatório sublinha que a recuperação europeia depende da retoma dos maiores mercados.
Residencial cada vez mais atrativo
Nos últimos meses, o segmento residencial continua no centro do radar dos investidores que procuram rendimentos estáveis, estimando-se que a habitação para arrendamento, as residências de estudantes, as residências sénior e os lares devam somar mais de 30% do investimento na Europa até setembro. A falta de oferta e a procura dos ocupantes sustentam a expectativa de subida das rendas.
No entanto, segundo os especialistas, «também o investimento em retalho continua a recuperar, com destaque para os centros comerciais. Os fluxos de capital dentro da Europa mantêm-se fortes, vindos de investidores do Reino Unido, França, Suécia e Alemanha. Os norte-americanos são a principal fonte de capital internacional na Europa, e os canadianos deverão tornar-se ainda mais ativos», comenta James Burke, Global Cross Border Investment Director da Savills.
Relativamente aos preços, «já não se antecipa uma descida generalizada das yields [prémio de risco]. Pelo contrário, a subida é agora esperada em mais mercados e setores. É nos escritórios e no retalho que as diferenças deverão ser maiores, porque os preços distinguem cada vez mais os imóveis prime dos secundários. Com este cenário, os resultados do investimento vão depender menos da evolução geral do mercado e mais do aumento das rendas, de uma boa gestão dos ativos e da capacidade de encontrar oportunidades cujo preço ainda não reflete todo o seu potencial», acrescenta Lydia Brissy, European Research Director da Savills.