Habitação inacessível: a bomba-relógio das cidades europeias

Habitação inacessível: a bomba-relógio das cidades europeias

A habitação deixou de ser apenas uma questão social para se afirmar como um dos maiores desafios estratégicos da Europa.

O recente relatório que desenvolvemos com o The Economist, Reinventar a habitação: criar cidades acessíveis e habitáveis, evidencia como a crescente inacessibilidade ameaça não só a qualidade de vida, mas também a competitividade das cidades europeias, incluindo Lisboa.

Apesar de muitas cidades europeias continuarem a destacar-se em rankings de habitabilidade, a pressão sobre o mercado residencial tem vindo a intensificar-se. Em Lisboa, os preços da habitação aumentaram cerca de 150% na última década, dificultando o acesso à primeira casa e colocando uma pressão crescente sobre famílias, jovens profissionais e trabalhadores essenciais. Esta dinâmica compromete a diversidade social e fragiliza o dinamismo económico urbano.

As causas são estruturais e exigem respostas de longo prazo. A Europa enfrenta um défice significativo de investimento no setor habitacional, estimado em cerca de 150 mil milhões de euros anuais para responder adequadamente à procura. Em paralelo, existem aproximadamente 33 biliões de euros em poupanças na Europa que poderiam ser redirecionadas para financiar uma nova oferta e reabilitação. É, por isso, essencial criar mecanismos que permitam canalizar este capital para a habitação, através de instrumentos financeiros inovadores, revisão de regras prudenciais e fundos especificamente dedicados à habitação acessível.

Contudo, o desafio não é apenas financeiro. Em toda a Europa existe uma elevada taxa de habitação devoluta, enquanto mudanças demográficas, como o aumento de agregados unipessoais, intensificam a pressão sobre a procura. Soma-se ainda o crescimento do alojamento de curta duração e dinâmicas especulativas que reduzem a oferta disponível para habitação permanente.

Dito isto, torna-se essencial repensar políticas públicas e estratégias urbanas. Mais do que respostas de curto prazo, como o controlo generalizado de rendas, importa apostar em soluções estruturais: incentivos ao investimento em habitação acessível, parcerias público-privadas mais eficazes e novos modelos de financiamento capazes de acelerar a criação de oferta.

A resposta terá de ser necessariamente colaborativa. Banca, instituições europeias, governos, investidores e setor da construção devem atuar de forma coordenada, com objetivos comuns e maior capacidade de execução. A inovação na construção e nos modelos de desenvolvimento urbano será determinante para reduzir custos e acelerar prazos de entrega.

A acessibilidade à habitação é hoje um fator crítico para a competitividade das cidades europeias. Sem ela, perdem capacidade de atrair talento, investimento e inovação, comprometendo o seu futuro económico e social.