Contexto pouco favorável atrasa arranque do Build to Rent

Contexto pouco favorável atrasa arranque do Build to Rent

Procura existe, mas licenciamentos, custos e enquadramento legal têm de ser mais atrativos para este produto de arrendamento. «Só conseguimos fazer BTR com escala e atraindo capital mais institucional».

Um mercado de compra e venda francamente dinâmico, custos de construção em alta e licenciamentos demorados ainda estão a dificultar o lançamento do mercado de construção para arrendamento profissionalizado, ou o chamado Build to Rent (BTR). Os profissionais do imobiliário reclamam mais estabilidade legislativa, maior disponibilidade de terrenos, parcerias público-privadas e flexibilidade de contratos, para que seja possível atrair o investimento necessário para este mercado. Este foi um dos principais temas em debate durante a Conferência da Promoção Imobiliária em Portugal – COPIP esta terça-feira.

Contextualizando o mercado residencial, Augusto Lobo, Head of Capital Markets da JLL Portugal, avançou na ocasião que esta já é a maior classe de ativos a nível mundial, mas não hesitou que «falar de Living em Portugal é falar sobre um sistema sob pressão. A nossa demografia está a mudar muito depressa, os agregados familiares são cada vez mais pequenos, e a oferta não cresce ao nível da procura. Estudantes, jovens, seniores e famílias precisam de soluções. E a boa notícia é que o setor pode construí-las». Para o especialista, fundos de investimento, administração pública, operadores especializados e utilizadores finais, «todos são necessários. Este não é um ciclo que vai passar, temos muito espaço para crescer».

Mas a tarefa não é fácil. Luís Corrêa de Barros, CEO da promotora Habitat Invest, aponta que, na compra e venda, «os retornos financeiros aparecem com as vendas, e no BTR o investimento tem de ser muito mais paciente». Os custos de construção têm vindo a aumentar todos os anos, e isso é «ainda mais complicado no BTR, porque os projetos são feitos a 15 ou 20 anos, o aumento dos custos não é proporcional ao limite de rendas estabelecido». Por isso, é necessária mais previsibilidade e segurança, bem como a cedência de terrenos públicos, para reduzir os custos finais.

Diogo Abecasis, Co-CEO e fundador do MAP Group, acredita que a solução passa pela pré-fabricação e pela construção modular. «Temos de mudar mentalidades e reduzir custos, fazer o produto de forma mais standard e repetitiva, para que seja mais rápido e económico».

A Sonae Sierra está apostada neste mercado, e encontrou uma forma de avançar, em parceria com o Grupo Casais. Tem um primeiro projeto a avançar no Porto, com 200 apartamentos. Alexandre Fernandes, Executive Director Developments, explica que «conseguimos replicar o nosso modelo de gestão dos centros comerciais, e temos uma procura forte e consistente». Em Portugal, identifica um paradoxo, pois a procura existe, mas a oferta tarda em se apresentar. «Demora pelo tempo do licenciamento, pelos custos, pelo enquadramento legal, e também porque todo o nosso modelo de promoção residencial está desenhado para o Build to Sell. Mitigando riscos, conseguimos atrair o capital necessário». Não hesita que «só conseguimos fazer BTR com escala e atraindo capital mais institucional».

Também a mediação imobiliária procura soluções. A Century 21 Ibéria está a preparar um novo serviço de gestão de património, prestado a proprietários e arrendatários. «Um acompanhamento diferente, para ajudar as famílias portuguesas nesse sentido», explica Joaquim Rocha de Sousa, Chairman da C21 Ibéria.

Certo é que «o BTR a preços acessíveis é um problema da sociedade global que tem de ser resolvido. E, para isso, a vontade também tem de ser global, envolvendo público, privado, seguradoras, financiamento», completou Diogo Abecasis.