Quando uma tempestade destrói casas, empresas e infraestruturas, o país reage. Há solidariedade, medidas de emergência e anúncios de apoios. É assim que deve ser perante uma calamidade. O problema começa quando, passada a emergência, não discutimos o que poderia ter sido feito antes.
Ao longo dos anos, habituámo-nos a discutir seguros depois das catástrofes. Raramente os discutimos antes delas.
Os números deveriam obrigar-nos a parar. Segundo a ASF (Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões), o “comboio de tempestades” que atingiu Portugal entre janeiro e fevereiro de 2026 provocou perdas estimadas em 5,3 mil milhões de euros. Apenas 26% estavam cobertas por seguros. É uma lacuna de proteção demasiado grande para ser ignorada.
Não estamos perante um problema de falta de seguros. As soluções existem. O problema é a dimensão da proteção que continuamos a não contratar.
E aqui começa a verdadeira discussão: qual é o incentivo para quem se previne?
Depois da Kristin, o Estado mobilizou apoios públicos para famílias e empresas afetadas. É compreensível e necessário, sobretudo para proteger quem fica numa situação de vulnerabilidade. Mas quando existem apoios à reconstrução de património que não estava segurado, transmite-se também a ideia de que poderá valer a pena esperar para ver.
Quem protege o seu património assume um custo antecipado. Quem não o faz pode acreditar que, perante uma grande calamidade, haverá sempre alguma forma de apoio público.
Não será esta uma equação que merece ser repensada?
Não defendo menos Estado. Defendo um Estado que ajude a prevenir, proteja quem realmente precisa e não desincentive quem tomou medidas para se proteger.
Talvez seja tempo de discutir incentivos à prevenção, maior literacia sobre seguros e critérios claros para os apoios públicos quando existia uma solução seguradora disponível.
Porque a próxima tempestade não será evitada por um seguro. Mas uma família pode evitar perder tudo por não ter proteção. E uma empresa pode evitar fechar portas por ter assegurado a continuidade da sua atividade.
Seis meses depois da Kristin, talvez esta seja a verdadeira oportunidade de deixar de discutir apenas quanto custa reconstruir depois da tempestade e começar a discutir quanto estamos dispostos a investir para não voltar a pagar a mesma conta.
A próxima tempestade não precisa de nos encontrar mais preparados porque tivemos sorte. Precisa de nos encontrar mais preparados porque aprendemos.