Os dados do Instituto Nacional de Estatística mostram que os preços da habitação subiram 17,8% no primeiro trimestre de 2026, apesar da primeira desaceleração desde 2024. No mesmo período, o número de transações caiu 8,7%. A quebra das vendas não se traduz, por isso, numa correção dos preços nem numa melhoria das condições de acesso.
A Confidencial Imobiliário reforça esta leitura para o primeiro semestre: o número de fogos vendidos caiu face a 2025, enquanto o preço médio por fogo continuou a crescer. O segundo trimestre recuperou face ao primeiro, mas permaneceu abaixo do período homólogo.
O mercado continua ativo, mas não igualmente acessível. Compra quem tem rendimentos compatíveis, poupança, crédito ou uma casa anterior para vender. Para quem procura a primeira habitação, sem valorização patrimonial acumulada, a barreira de entrada é cada vez maior.
A composição das transações confirma esta realidade. As famílias representaram 87% das aquisições e as habitações existentes cerca de 80% das vendas. Isto sugere que parte relevante da dinâmica continua suportada pela troca de casa e pelo património acumulado das famílias portuguesas, mais do que pela entrada de novos compradores.
Não esperamos uma inversão estrutural da valorização no segundo semestre. Poderá existir moderação e maior exigência na formação de preço. Mas enquanto persistir a escassez de oferta adequada e compatível com os rendimentos, dificilmente haverá uma correção significativa.
Na Century 21 Portugal acompanhámos cerca de 12.000 famílias na compra ou arrendamento de habitação no primeiro semestre, confirmando que a procura existe. O desafio está na capacidade do mercado responder às suas necessidades.
Por isso, o debate público não se pode limitar à ideia de construir mais. Portugal precisa de mais oferta, mas a pergunta essencial deve ser: onde construir, como construir e para quem construir?
A resposta passa por habitação pública e acessível nos territórios de maior pressão, planeamento urbano numa escala metropolitana, revisão dos códigos de construção, melhorar as soluções de mobilidade urbana inovação e apoios ajustados aos preços locais, rendimentos e famílias que realmente precisam.
O segundo semestre deverá confirmar um mercado resiliente, mas mais seletivo, condicionado pelo desfasamento entre preços e rendimentos. O futuro dependerá menos da procura e mais da capacidade de criar oferta adequada, nos locais certos, com custos compatíveis e para quem hoje está fora do mercado.