Portugal continua excessivamente dependente de um modelo centrado na compra de casa, quando aquilo que falta é um mercado habitacional equilibrado, onde comprar e arrendar coexistam de forma saudável e sustentável.
Durante décadas incentivámos a propriedade, mas negligenciámos o arrendamento. O resultado está à vista: pouca oferta, pouca confiança dos proprietários, poucos incentivos para atrair capital e um mercado incapaz de responder às necessidades de mobilidade, acesso e estabilidade que uma economia moderna exige. Não basta construir mais se continuarmos sem uma verdadeira economia do arrendamento.
Os países mais desenvolvidos perceberam isto há muito. Alemanha, Dinamarca ou Suécia não têm mercados de arrendamento robustos por acaso. Criaram estabilidade jurídica, benefícios fiscais e condições para atrair investimento institucional de longo prazo. Transformaram o arrendamento numa classe de ativos. Portugal continua atrasado nesta matéria e precisa de seguir esse caminho.
Precisamos de incentivos fiscais reais para o arrendamento, mais segurança jurídica para senhorios e inquilinos e condições para desenvolver modelos como o Build to Rent, que já funcionam noutros mercados e podem trazer escala e nova oferta. Precisamos também de perceber que a habitação não pode depender apenas do pequeno proprietário. O capital institucional tem de fazer parte da solução.
Ao mesmo tempo, é preciso reduzir custos e acelerar produção. A industrialização da construção pode e deve ter um papel central. Métodos construtivos mais rápidos, soluções modulares e maior eficiência nos processos podem ajudar a construir melhor, mais depressa e com custos mais controlados.
Também a profissionalização do setor é essencial. A mediação imobiliária tem hoje um papel cada vez mais relevante na criação de transparência, confiança e melhor serviço ao comprador, ao vendedor, ao senhorio e ao arrendatário. Um mercado mais maduro exige também intermediários cada vez mais qualificados.
O problema da habitação não se resolve apenas com mais casas. Resolve-se com um novo modelo. Um modelo que trate a habitação como infraestrutura económica, que valorize o arrendamento como parte da solução e que deixe de olhar para este desafio apenas como um debate político.
Porque a crise da habitação não é apenas falta de oferta.
É falta de visão.
E isso pode ser corrigido.