Estes dados mostram um mercado pressionado, onde a procura continua a encontrar uma oferta insuficiente e onde cada decisão, seja comprar, vender ou arrendar, tem um peso cada vez maior. Portugal precisa de construir mais, reabilitar mais e colocar mais casas no mercado. Não há forma de contornar essa realidade. Mas a resposta ao problema da habitação não pode esgotar-se na quantidade de imóveis disponíveis.
Num mercado mais complexo, exigente e financeiramente pesado para as famílias, também a forma como essas casas chegam ao mercado tem de merecer atenção. E é aqui que a mediação imobiliária assume uma responsabilidade que vai muito além de aproximar quem quer vender de quem quer comprar.
Quando uma casa representa, para a maioria das pessoas, uma das decisões financeiras mais importantes da sua vida, é fundamental garantir que quem acompanha esse processo tem formação, conhecimento e responsabilidade. Um mediador qualificado deve saber interpretar o mercado, aconselhar sobre o valor de um imóvel, gerir expectativas, explicar cada etapa do processo, identificar riscos e assegurar que compradores e vendedores dispõem da informação necessária para decidir de forma consciente.
É por isso que defender uma mediação mais profissional não é defender os profissionais do setor. É defender os consumidores. Precisamos de regras mais claras, contratos equilibrados, maior transparência sobre as características dos imóveis, fiscalização eficaz e formação séria para quem exerce a atividade. A confiança não pode depender apenas da boa vontade de cada operador; tem de resultar de um mercado mais exigente e de padrões que sejam reconhecidos por todos.
A mediação, naturalmente, não cria as casas que faltam. Não substitui políticas de habitação, construção ou reabilitação. Mas pode contribuir para que a oferta que existe seja colocada no mercado de forma mais informada, realista e transparente e para que negócios que envolvem tantas vezes as poupanças de uma vida sejam feitos com maior segurança.
Muito se discute como aumentar a oferta, talvez seja também altura de perguntar que mercado queremos construir. Mais casas são essenciais. Mas um setor mais qualificado, transparente e responsável também faz parte da resposta.