O município de Mafra quer atrair mais investimento para habitação a custos moderados e acessíveis. Para Hugo Moreira Luís, presidente da Câmara Municipal, o concelho deve destacar-se pela sua identidade: «a nossa estratégia para os próximos anos não é de crescimento, mas de desenvolvimento».
No encontro, realizado na Tapada de Mafra, o autarca revelou que o município acaba de criar a Carta Municipal de Habitação. Um dos objetivos é «incentivar a concretização de habitação a custos controlados para arrendamento acessível», a par da alteração do uso dos solos e de mais arrendamento público. A autarquia admite mesmo que «pode lançar uma OPA ao mercado imobiliário», para subarrendar imóveis privados a preços acessíveis. Atualmente, 24% dos fogos não são habitação permanente e «temos de trazê-los para o mercado». A prioridade é «transmitir confiança ao mercado», porque «Mafra é um território de oportunidades».

Observatório Imobiliário de Mafra apoia decisões mais informadas
Foi também apresentado o Observatório Imobiliário de Mafra, plataforma que vai monitorizar preços de venda, rendas, novos projetos e reabilitação urbana, para apoiar políticas públicas mais eficazes e reforçar a transparência do mercado.
Ricardo Guimarães, diretor da Confidencial Imobiliário, destacou que Mafra é um dos concelhos da região de Lisboa onde os preços mais crescem, por efeito de «mancha de óleo» a partir da capital, com uma valorização de cerca de 20% este ano. Ericeira, Santo Isidoro e Alcainça estão entre as freguesias mais procuradas. Predominam, porém, as moradias: apenas 1% dos projetos em licenciamento tem 20 ou mais fogos. No arrendamento, a oferta é extremamente limitada e o potencial é grande. «Agora, é preciso conciliar a atração de investimento com a oferta de habitação acessível», sublinhou.
Mafra é alternativa num mercado muito pressionado
Ricardo Sousa, CEO da Century 21 Portugal, apresentou o Estudo de Acessibilidade da Habitação: «o mercado está a abrandar», mas «ainda está bastante dinâmico», e os bons números «não refletem a realidade social». Desde 2022, rendas e preços subiram acima de 56% e os salários apenas 16%.
As famílias entre o 2.º e o 5.º escalão do IRS poderiam pagar, em teoria, cerca de 350.000 euros por uma casa, mas na AML, onde 72% da população está nestes escalões, só 38% da oferta tem esse preço. «Temos preços europeus para os salários portugueses de sempre».
Mafra é cada vez mais procurada como alternativa próxima de Lisboa, embora o preço médio por fogo vendido, de 394.000 euros, confirme «um cliente já acima da média». Para o responsável, «é precisa mais habitação pública, rever planos diretores municipais, rever os códigos da construção».

Habitação acessível: há soluções, mas o contexto é difícil
Na análise de João Moreira, Board Member da GFH, tendo em conta os rendimentos dos portugueses, e para efeitos de Habitação a Custos Controlados, pode ser considerado um valor de 234.000 euros a nível nacional e de 295.000 euros em Mafra. «Mas o contexto é difícil, temos um parque muito envelhecido». A GFH tem 2.300 fogos em carteira neste segmento e diz-se «pronta para apresentar novas ideias e para trabalhar com Mafra».
Confiança é ‘essencial’
«Mais do que atrair a população, queremos fixá-la», reforçou Hugo Moreira Luís. «Mafra, em particular, não tem muitos terrenos disponíveis, mas o nosso papel é mobilizador e dinamizador. A confiança é essencial».
João Moreira destaca a importância de um licenciamento ágil e de terrenos disponíveis: «Sem a ajuda das autarquias, dificilmente o arrendamento evoluirá de forma positiva neste momento».
Daniela Nunes, administradora da Luz & Marques, partilha o interesse em investir no concelho, mas admite: «estamos receosos do conflito no Médio Oriente», com custos que, desde 2024, «já subiram mais ou menos 20% a 30%». E considera que os incentivos públicos, como o IVA a 6% na construção de habitação, têm demasiadas condicionantes que o tornam pouco atrativo, «pelo menos para um pequeno investidor».
Ricardo Guimarães lembrou que a informação «é determinante para gerar confiança, garantir transparência e, consequentemente, garantir investimento», enquanto Hugo Moreira Luís deixou o apelo: «tragam projetos ajustados ao nosso concelho, teremos vias verdes para os projetos mais significativos».