Solos contaminados: proteger sem desperdiçar

Solos contaminados: proteger sem desperdiçar

Quando se constrói um edifício, uma estrada ou uma infraestrutura, há uma questão que raramente chega ao debate público: o que fazer com a terra retirada do terreno?

Em muitos casos, esse solo pode ser reutilizado. Mas, quando são detetadas substâncias contaminantes acima de determinados valores de referência, pode ser classificado como contaminado e, uma vez escavado, passar a ser tratado como resíduo.

Importa, por isso, distinguir duas realidades que nem sempre são equivalentes: a presença de um contaminante e a existência de um risco efetivo. O risco depende das características do local, do contaminante, da forma como está presente e do uso previsto. É neste ponto que Portugal deve fazer uma pergunta: estamos perante um verdadeiro risco ambiental ou perante um recurso que estamos, desnecessariamente, a transformar em resíduo?

O paradoxo é evidente. Um solo pode permanecer no local porque, consideradas as condições existentes, não representa um risco inaceitável. Mas, se for escavado, a sua reutilização pode ficar fortemente limitada, mesmo quando uma análise de risco demonstra que, em determinadas condições, não representa riscos significativos.

O resultado é pouco compatível com os princípios da economia circular. O solo é retirado, transportado, tratado ou encaminhado para aterro. Aumentam o consumo de energia, as emissões e os custos, enquanto diminui a capacidade dos aterros. Em vez de gerirmos um recurso, podemos estar a criar resíduos.

A proteção da saúde e do ambiente deve continuar a ser a prioridade. Mas proteger não significa aplicar uma regra igual a todas as situações. Significa avaliar o risco e decidir em função das características de cada caso.

Quando a avaliação concluir que a reutilização é segura, deve existir um enquadramento claro que a permita, com critérios rigorosos, controlo e rastreabilidade. É possível garantir que solos com impactos residuais não sejam deslocados sem controlo e evitar que sejam automaticamente condenados a aterro.

Vários países europeus demonstram que uma abordagem baseada no risco pode garantir proteção ambiental e, em determinadas circunstâncias, permitir a reutilização segura de solos. Portugal deve evoluir nesse sentido, sobretudo quando precisamos de construir mais e melhor, com maior eficiência e menores custos ambientais e económicos.

Cada tonelada de solo desnecessariamente transformada em resíduo implica transporte, consumo de recursos, tratamento ou deposição e, no final, um custo para os projetos e a sociedade.

Proteger os solos não é impedir a sua reutilização. É garantir que são tratados quando existe risco e que, quando não existe, não transformamos um recurso em desperdício. A sustentabilidade passa por distinguir o que devemos eliminar do que podemos reutilizar com segurança.