À medida que esse objetivo se torna mais difícil de alcançar, cresce também a responsabilidade do setor em contribuir para soluções concretas, capazes de produzir resultados e devolver confiança às famílias.
Num recente ensaio sobre o preço das casas, Pedro Santa Clara recupera uma ideia essencial: quando a procura aumenta e a oferta não consegue responder, a pressão recai sobre os preços. Para a habitação, a consequência é clara: facilitar a compra, sem criar condições para disponibilizar mais casas, pode deixar parte do apoio absorvida pelo próprio mercado.
Este argumento merece ser levado a sério. Mas aumentar a oferta exige mais do que anunciar construção. Exige perceber onde faltam casas, que tipologias são necessárias e a que rendimentos se pretende responder. Uma casa longe do emprego, sem transportes ou com um custo incomportável não resolve a necessidade de quem a procura.
É aqui que precisamos de tornar o debate mais concreto. Quanto tempo demora um projeto a passar do papel à obra? Quantas habitações chegam efetivamente ao mercado? Quantas se destinam ao arrendamento permanente? Que relação existe entre os seus preços e os rendimentos locais? Estes devem ser critérios de avaliação das políticas de habitação.
Licenciar com maior previsibilidade, reabilitar património e criar condições estáveis para investir no arrendamento são partes da resposta. Também o são o reforço da habitação pública e o apoio às famílias que não conseguem aceder ao mercado. A urgência social exige proteção enquanto as soluções estruturais ganham escala.
A mediação imobiliária tem uma responsabilidade concreta neste processo. O contacto diário com compradores, proprietários e arrendatários permite identificar desencontros entre a oferta disponível e as necessidades reais. Transformar esse conhecimento em informação agregada e rigorosa pode ajudar municípios e promotores a decidir melhor.
Esse contributo exige profissionais qualificados, transparência na informação e rigor na formação de expectativas. Distinguir preços anunciados de valores de transação, explicar riscos e evitar promessas sem fundamento são formas de melhorar o funcionamento do mercado e proteger quem nele decide.
O setor deve assumir uma ambição que vá além do volume de negócios: contribuir para que mais pessoas encontrem uma solução habitacional adequada. É por esse resultado que devemos exigir políticas eficazes e avaliar o nosso próprio contributo.