A Convenção APEMIP IMOCIONATE reuniu esta quarta-feira cerca de 700 profissionais do setor da mediação imobiliária no Centro de Congressos do Estoril, um dia organizado pela associação, em parceria com a revista Vida Imobiliária, dedicado à reflexão sobre o momento atual da economia e do setor imobiliário, às novidades legislativas da habitação e à partilha de experiências e conhecimento dos profissionais da mediação imobiliária.
Durante o evento, Patrícia Barão, presidente da Direção Nacional da APEMIP, destacou que «não é possível trabalhar em mediação sem criar laços de confiança. Temos de ser especialistas para conseguir acompanhar o processo de compra ou de arrendamento, e temos de transmitir essa confiança. Não nos basta saber tudo sobre o mercado, temos de ser capazes de usar as ferramentas que temos ao nosso dispor. Somos nós que estamos na primeira linha do mercado imobiliário, por isso temos estado no fórum público. E o futuro da nossa profissão não vai estar escrito na lei nem será nenhum presidente a escolher, nós é que vamos decidir o nosso futuro».
Salientou também a importância da nova legislação que está na iminência de ser publicada, há muito aguardada pelo setor. «A lei que nos regula está completamente ultrapassada. Sabemos que na nova lei a formação será muito importante, e que os bons profissionais continuarão a fazer parte da profissão».
Uma lei para ‘capacitar o setor’
Há muito aguardada pela mediação imobiliária, a nova lei que vai regular a profissão encontra-se atualmente «em circuito legislativo», garante o presidente do Conselho Diretivo do IMPIC, Fernando Batista, convidado do evento. Não avançando demasiados pormenores, o regulador refere que «propôs uma lei que se adapte às novas realidades, tecnologias e que se foque em capacitar o setor. Todos os que trabalham nesta área têm de ter formação obrigatória, inicial e sequencial».
Fernando Batista identifica que muita coisa mudou na profissão da mediação imobiliária nos últimos 10 anos, nomeadamente o facto de Portugal se ter vindo a afirmar como destino de investimento imobiliário, ou o aumento da competitividade. «Há uma maior noção de que a confiança é o maior ativo da mediação imobiliária. É preciso conhecer o mercado e estar capacitado, por isso queremos que o novo enquadramento legal seja uma alavanca para podermos melhorar ainda mais».
Em paralelo, um dos grandes focos do IMPIC continua a ser «o combate ao exercício da atividade ilegal da mediação. É lesiva do Estado, dos consumidores e da profissão como um todo. Vamos continuar a ter essa prioridade», garante Fernando Batista.
Incerteza global não ‘descansa’ a economia
Dando um breve contexto da situação económica, Philippe Laporte, Deputy CEO da UCI – União de Créditos Imobiliários, destacou o crescimento da economia portuguesa, que se mantém e deve continuar no futuro. A procura interna por habitação continua alta, o mercado de trabalho mantém-se resiliente, e o Banco de Portugal tem avançado com novas salvaguardas prudenciais, mas «há riscos a monitorizar», como a geopolítica, a volatilidade dos preços da energia e inflação subjacente e, internamente, o agravar do acesso à habitação e a necessidade de ‘disciplina de crédito’. «Espanha e Portugal têm alguns dos juros mais agressivos da Europa, e isto é um dos motores por detrás do mercado imobiliário». No entanto, tudo pode mudar, conforme o que o Banco Central Europeu decidir em breve para travar (mais ou menos) a inflação.
O economista Pedro Brinca avisa que «Portugal é uma pequena economia aberta, por isso está sempre exposta aos choques internacionais. O choque de inflação será persistente, por isso a política monetária terá de ser também ela persistente». Ricardo Valente, diretor da Delegação da Região Norte da APEMIP, considera que o cenário macroeconómico é «muito interessante para Portugal», mas que tudo depende do aumento da oferta imobiliária. «O Estado deveria permitir um choque de oferta». Pedro Brinca critica também os atuais requisitos de construção demasiado exigentes e desadequados, a grande falta de mão-de-obra e de planeamento urbano e de mobilidade, fatores que estão a dificultar o aumento da oferta de habitação.
João Braz, Head of Partnerships do Idealista, já vê sinais de estabilização do mercado no arranque do ano, «o que acaba por ser natural depois de muitos anos de forte procura. O mercado está a transacionar menos, mas a preços mais elevados. Não vemos uma tendência de inversão, enquanto esta procura estrutural se mantiver, dificilmente veremos preços a descer».
Arrendamento, o segmento que mais falta faz
Por ser uma grande lacuna no mercado da habitação, o arrendamento esteve em discussão no evento. Para Ricardo Guimarães, diretor da Confidencial Imobiliário, este «é o pilar que faz mais falta no nosso mercado». Mas, até agora, a perceção de instabilidade e o risco para os proprietários tem superado os benefícios públicos para contratos mais longos. «Pelo contrário, foram feitos mais contratos curtos para gerir melhor os ciclos e as mudanças». O especialista acredita que a criação da figura dos Contratos de Investimento para Arrendamento (CIA) poderão fazer toda a diferença. «Espero que funcionem, o enquadramento tem mesmo de ser mais favorável para que se crie este mercado de arrendamento».
Vera Gouveia Barros, economista, concorda que «todos os formatos de habitação são válidos e o arrendamento é necessário». Mas acha que as novas medidas para a habitação não são suficientes e «criam até algumas injustiças». A segurança é fundamental, e Paulo Caiado, vice-presidente da APEMIP, aponta que «qualquer pessoa que arrenda a sua casa procura segurança naquele contrato, sabendo que, se algo não correr bem, tem o seu imóvel restituído em tempo útil, é isso que fará diferença no mercado de arrendamento». Defende que «temos de deixar de falar em despejos e senhorios, são expressões medievais que polarizam a nossa sociedade. Nenhum proprietário quer despejar um inquilino, quer sim a sua casa de volta em tempo útil em caso de incumprimento». Mas alerta que, qualquer que seja a solução habitacional, «falta-nos capacidade construtiva. A que existe, já está a laborar em pleno».
A Convenção APEMIP IMOCIONATE abordou também a integração da Inteligência Artificial no dia-a-dia da profissão ou a oportunidade de parceria entre a mediação imobiliária e a intermediação de crédito, e foi uma oportunidade de partilha da experiência de vários consultores imobiliários de topo, que partilharam um pouco sobre as dificuldades e momentos mais importantes dos seus percursos. Também as melhores estratégias de venda estiveram em destaque.