Os dados do INE mostram a tensão: no segundo trimestre de 2026, o preço mediano das casas transacionadas subiu 18,4% face ao ano anterior, enquanto as transações caíram 9%. A pressão estende-se: Médio Tejo (+25,4%), Oeste (+24%), Lezíria do Tejo (+23,9%) e Península de Setúbal (+22,2%). Perante preços incomportáveis, as famílias procuram casa em concelhos próximos. O problema não desaparece. Muda de mapa.
Habitação e mobilidade não podem ser pensadas separadamente. Investir em transportes alarga o território onde é possível viver a um custo acessível. Sem essa aposta, uma casa mais barata pode traduzir-se numa vida mais cara, em portagens e deslocações.
Importa reconhecer o trabalho em curso. Não há soluções imediatas. Como assinalou esta semana o MIH, há mais habitação pública entregue por ano, maior investimento, metas do PRR ultrapassadas e, pela primeira vez desde 2010, mais construção do que novos agregados.
A quantidade de casas é a primeira pergunta e começa a ter resposta. A segunda é: acessíveis para quem? O nosso Estudo de Acessibilidade à Habitação 2026 cruza rendimentos líquidos das famílias (INE) com rendas e preços (Confidencial Imobiliário) em 40 concelhos. Para uma casa de 90 m², o esforço modelado no arrendamento chega a 78,4% do rendimento em Lisboa e a 61,3% em Setúbal. É um indicador de referência, mas evidencia a distância entre preços e rendimentos.
É nesse intervalo que deve ser avaliado o novo Regime Simplificado de Arrendamento Acessível. Diferenciar limites por concelho e tipologia e dar incentivos a quem coloca casas no mercado são passos positivos. Mas o limite de cada concelho parte de 80% da mediana das rendas apuradas pelo INE — uma referência de mercado, não de rendimento — e, ao contrário do regime anterior, deixou de existir qualquer teste de taxa de esforço. Uma renda pode cumprir todos os critérios do regime e continuar a ser excessiva para quem a paga.
Não é um argumento a favor de tetos gerais nem de rendas obrigadas a baixar, mas sim para não pedir a uma política de oferta que faça o trabalho de uma política social. A primeira põe casas no mercado e precisa de regras claras e previsíveis, porque proprietários e promotores decidem a longo prazo. A segunda garante que uma família que trabalha, mas não consegue suportar uma habitação adequada, tem apoio público direcionado, por rendimento líquido, composição do agregado e concelho. É uma responsabilidade pública, não pode ser descarregada no proprietário individual.
As medidas devem avaliar-se pelas casas que entram no mercado formal e pelas famílias que lhes acedem com esforço sustentável. A mediação continuará a contribuir com dados reais e experiência de terreno.
A confiança não se decreta. Constrói-se, com tempo, consistência e estabilidade.